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Mulher no mercado de trabalho e na liderança em 2020

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Crescemos em uma sociedade que sempre se referia a mulher como o sexo frágil. Ao longo da minha infância nunca entendi isso muito bem, pois as referências que eu tinha ao meu redor era o oposto do que a sociedade dizia. Minha família sempre teve sua maioria composta por mulheres e todas elas eram o oposto do que a sociedade caracterizava como uma mulher deveria ser. Cresci vendo injustiças sendo realizadas com as mulheres, que acabavam se fortalecendo. Descobri que elas não era o sexo frágil. 

Ao me tornar adulta, achei que o mundo e o mercado de trabalho seriam ambientes mais justos, mas a realidade era totalmente diferente. Independente, do setor, cargo, ou mesmo, como empreendedora do seu próprio negócio. Você já deve ter ouvido diversas histórias de pessoas menosprezando as mulheres no ambiente de trabalho. Como não poderia ser diferente eu já vivi algumas, seja pelo menosprezo, cliente querendo negociar com um homem, colega (homem) querendo ser reconhecido pela tarefa alheia. 

Este é um texto sobre a equidade e seus benefícios para a sobrevivência dos negócios e da humanidade. Você é homem e está lendo, certamente há uma esposa, irmã, mãe, filha que precisa do seu apoio. Acredito em uma sociedade equitária. Afinal, o que é equidade?

Sobre Equidade

Igualdade e equidade ainda que pareçam bem semelhantes, possuem significados diferentes. Na igualdade prezamos a inexistência de diferenças e que seja igual para todos. Enquanto, na equidade consideramos o senso de justiça e oferecer oportunidades iguais independentemente da situação do indivíduo. Considerando que todos os indivíduos não são iguais devemos ter oportunidades diferentes para homens e mulheres.

Trajetória da Mulher

Ao olharmos nossa história e o papel social da mulher nos deparamos com fatos que hoje parecem surreais, mas que aconteceram. Num passado não muito distante, era inconcebível elas trabalharem, as mulheres deviam apenas cuidar da casa e filhos. Se você quiser entender um pouco mais sobre isso vou indicar dois livros “A História das Mulheres no Brasil” de autoria de Mary Del Priore e “Mulheres dos Anos Dourados” da Carla Bassanezi Pinsky, o primeiro trata da trajetória da mulher desde o período colonial até os nossos dias e o segundo trata especificamente a trajetória da mulher no período entre 1945 e 1964 no Brasil. Em seu livro, Carla Bassanezi Pinsky, apresenta exemplos de textos veiculados para as mulheres em revistas como Claudia que abordavam os afazeres domésticos, o cuidado com os filhos e o casamento como metas de vida.

[…] a mais perfeita felicidade: a de ser esposa e mãe. (“Direito, mulher e lei”, Claudia, 12.1962)

[…] a finalidade última do casamento é a prole. (“Claudia responde”, Claudia, 01.1962)

A autora ainda destaca algumas frases retiradas do Jornal das Moças:

“A desordem em um banheiro desperta no marido a vontade de ir tomar banho na rua.” (Jornal das Moças, 25.10.1945)

[…] a mulher pode e tem o direito de desejar ser uma letrada ou cientista, de saber cozinhar e lavar, mas jamais deve ignorar as funções de mãe. (Jornal das Moças, 21.03.1949)

Esse período aconteceram diversas transformações em nosso mundo que impactaram em mudanças de comportamento em nossa sociedade. Por isso, se você não viveu e nunca ouviu sobre esse período e quer conhecer mais, vale a leitura. Acredito que devemos conhecer nossa história para termos um melhor entendimento do nosso contexto e como vamos construir nosso futuro. Poderia citar diversos trechos e exemplos, mas o objetivo é conseguirmos entender como foi a trajetória feminina em busca dos seus direitos nas últimas décadas. 

Muita coisa mudou. Os homens já foram os responsáveis pela sustento da família. Em contrapartida, hoje elas são responsáveis pelas decisões familiares sendo consideradas a “chefe” e esse número nos últimos 15 anos mais que dobrou. Na pesquisa elaborada por Suzana Cavenaghi e José Eustáquio Diniz Alves, demógrafos, da Escola Nacional de Seguros, esse número saltou de 2001 de 14,1 milhões de lares para 28,9 milhões em 2015, um aumento de 105%.

Esses números representam todos os espaços que as mulheres tiveram que conquistar: direto ao voto, ao mercado de trabalho, a escolha de ter filhos, a empreender, a escolha de roupas, ao estudo, entre outras. Foram tantas conquistas nas últimas décadas e que representaram uma mudança de paradigma, transformação na sociedade com impacto na economia. Imagine, se por um acaso, hoje todas as mulheres não pudessem mais trabalhar. Colapso na economia. E certamente, colapso mental para as mulheres acostumadas com o trabalho.

Desigualdade na Prática 

Infelizmente, mesmo com essas conquistas, alguns dados são alarmantes como o estudo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2019, que mostra que as mulheres ganham uma remuneração menor que os homens em todas as ocupações selecionadas na pesquisa. No período entre 2012 e 2018 houve uma redução na desigualdade salarial, contudo, as mulheres ainda recebem em média 20,5% menos que os homens no Brasil.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) listou os indicadores sociais das mulheres no Brasil , em 2018, e vou elencar aqui os principais (com dados de 2016):  

  • a taxa de frequência escolar no ensino médio é 10% maior que os homens;
  • na população com idade superior a 25 anos com ensino superior completo, as mulheres têm um percentual 6,2% maior que os homens;
  • o tempo dedicado aos cuidados de pessoas ou afazeres domésticos representam para as mulheres 18,1 horas semanais e os homens 10,5 horas semanais;
  • 10,5% dos assentos da câmara dos deputados são ocupados por mulheres (dados de 2017), no mundo as mulheres representam 23,6%;
  • em relação aos cargos gerenciais, 37,8% são representados por mulheres;

Com base nesses números, as mulheres não são o sexo frágil e ao longo de sua trajetória conquistaram espaço e diminuíram a desigualdade entre gêneros. Mas, como vemos ela ainda existe. A consultoria Bain & Company junto com o LinkedIn realizaram o estudo “Sem atalhos: transformando o discurso em ações efetivas para promover a liderança feminina” com a presença de 914 profissionais entre homens e mulheres. O estudo tinha o objetivo de avaliar a percepção sobre como as empresas onde trabalham atuam com o tema “diversidade feminina”. Alcançar a igualdade de gênero criando um ambiente inclusivo deveria ser uma das 5 prioridades estratégicas de qualquer organização para 82% das mulheres e para 66% dos homens. Contudo, apenas 41% das mulheres e 38% dos homens acreditam que os líderes de suas organizações trabalham o tema de forma prioritária.

De acordo com  Luciana Batista, sócia da Bain & Company e uma das responsáveis pelo estudo, em entrevista para o Estado de Minas, há os dois lados da moeda. “Em relação à pesquisa que fizemos em 2013, houve um aumento de 10 pontos percentuais no número de mulheres que veem comprometimento da liderança com a promoção da diversidade e isso é bastante coisa” diz. Para ela, o número, ainda abaixo de 50%, é pequeno. 

O estudo da Bain e Linkedin ainda aponta outros dados para compararmos entre os homens e mulheres:

  • a mulher é 1,7 vezes mais propensa a não ser considerada para uma oportunidade pois é percebida como não flexível e com baixo comprometimento;
  • a mulher é 1,6 vezes mais propensa a receber um salário menor do que os homens em cargos semelhantes;
  • a mulher é 1,5 vezes mais propensa a não ser considerada para uma posição/oportunidade devido à modo de liderança ou relacionamento interpessoal.

Outra pesquisa realizada pela McKinsey & Company e Leanin.Org denominada Women in the Workplace (Mulheres no Mercado de Trabalho) contou com a participação de 329 empresas da América e mais de 68.500 funcionários. Este estudo apontou alguns dados:

  • para cada 100 homens contratados e promovidos para gerente, apenas 72 mulheres são contratadas e promovidas;
  • os homens ocupam 62% dos cargos de nível gerencial,enquanto as mulheres ocupam 38%. E a cada nível hierárquico o número de mulheres cai como podemos observar na figura abaixo.

Fonte: https://leanin.org/women-in-the-workplace-2019

Esses dados demonstram que ainda há muitos passos nessa jornada. Essa evolução depende das organizações, dos colegas e também de você mulher. Se por um lado, a mulher deve trabalhar suas habilidades e competência para assumir um cargo de gerência, por outro lado, a empresa também deve estimular a diversidade de gênero em seus cargos de liderança. 

Recentemente, em 20 de janeiro de 2020 em matéria veiculada no Brasil Journal, o CEO da Goldman Sachs, David Solomon afirmou que o banco não vai mais coordenar o IPO de empresas que não tiverem pelo menos uma minoria no conselho, com foco nas mulheres. Este foi considerado um dos maiores passos de um banco em um compromisso com a diversidade. Esta regra passa a valer a partir de julho, inicialmente na Europa e Estados Unidos. Em 2021, somente serão aceitas empresas com no mínimo duas mulheres no conselho. Solomon acrescenta que empresas que tem pelo menos uma mulher no conselho atingiram uma performance “significativamente melhor” nos últimos quatro anos quando comparadas às empresas que tem apenas homens no conselho. Em 2019, em matéria veiculada no Valor, a editora de carreira Stela Campos, apresentou um estudo sobre diversidade na América Latina da consultoria McKinsey que comparou os dados financeiros e gênero e, ao final, demonstraram que empresas com pelo menos uma mulher entre seus cargos executivos são mais lucrativas. De acordo com o estudo, “as empresas têm 50% mais chance de aumentar a rentabilidade e 22% de crescer a média da margem Ebitda.” 

Buscando a equidade, a ONU Mulheres lançou a iniciativa global “Por um Planeta 50/50 em 2030: um passo decisivo pela igualdade de gênero”, com compromissos assumidos por mais de 96 países entre eles o Brasil. De acordo com a ONU Mulheres “Construir um Planeta 50/50 depende de todas e todos – mulheres, homens, sociedade civil, governo, empresas, universidades e meios de comunicação – trabalhem de maneira determinada, concreta e sistemática para eliminar as desigualdades de gênero.”

Como pontua, a autora Lívia Mandelli em seu livro Liderança Nua e Crua, devemos enquanto líderes (de nossas vidas e nas organizações) equilibrar o lado masculino e feminino de liderar.* As organizações devem buscar pela equidade em suas relações, espaços e cultura. Devemos crescer juntos, com respeito mútuo entre colegas, líderes e profissionais. Não é sobre ser homem ou mulher, ser melhor que um ou outro, mas sobre como juntos podemos trabalhar para a construção em prol de um mesmo objetivo.

*Essa história fica para a próxima.

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