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Como ser uma empresa criativa

Nikita Kachanovsky

A existência de uma empresa está intimamente vinculada à sua criatividade. Precisamos nos reinventar por diversos fatores: obsolência programada, mudança no perfil dos consumidores, transformação digital e o fato vivermos no mundo VUCA. Contudo, ainda existem negócios com dificuldades para serem criativos e, consequentemente, inovadores.

É comum organizações falarem mais sobre inovação do que criatividade. Faz sentido, uma vez que a inovação se torna o fim do processo e trará resultados para a empresa. Contudo, é preciso compreender que uma cultura de inovação depende do fomento de três processos inter-relacionados.

Segundo Ken Robinson, estudioso da criatividade, os três processos são:

  • Imaginação: visualizar por meio da mente coisas que não existem;
  • Criatividade: ter ideias originais com algum valor;
  • Inovação: colocar em práticas as ideias originais;

A inovação é o objetivo da empresa e está inserida em qualquer aspecto do trabalho de uma organização, seja em produtos, serviços ou sistemas. Mas, a inovação precisa começar com a imaginação e criatividade. Para ficar mais fácil de entender, Ken Robinson, explica que “desenvolver a inovação sem antes desenvolver os poderes criativos e imaginativos dos quais ela depende seria como uma atleta esperar ganhar a medalha de ouro sem qualquer intenção de se exercitar antes da prova”. O sucesso nos esportes depende do exercício da aptidão física e na inovação depende dos exercícios dos poderes imaginativos e criativos.

A criatividade das pessoas e das equipes de trabalho se estabelecem como partida para a inovação. Mas, não é o suficiente. Não adianta uma empresa possuir profissionais criativos se não possui uma cultura de inovação. Muitas vezes existem gestores e equipes com vontade de inovar, mas a liderança do topo da organização não pensa da mesma forma. A cultura de inovação é desenvolvida se a iniciativa surgir das altas lideranças.

Muitos destes líderes possuem alguns temores ao instaurar uma cultura de inovação. Muitas vezes temem que seja preciso apresentar um fluxo constante de ideias ou que liberar a criatividade leve ao caos e descontrole. É preciso haver um equilíbrio entre autonomia para experimentar e sistemas de avaliação. Dessa forma, a criatividade e a inovação se tornam mais eficazes.

As organizações precisam desenvolver a cultura de inovação e esta decisão deve partir da alta liderança. Realizar as mudanças necessárias nas empresas com o aval e engajamento dos líderes faz toda a diferença. A criatividade se desenvolve por meio da cultura. As ideias criativas são fortalecidas em determinadas condições culturais. Não existe uma estratégia única nem um modelo aplicável a todas as organizações, especialmente porque nenhuma cultura de inovação é igual à outra.

O que as empresas criativas fazem?

Aqui estão algumas dicas que podem lhe auxiliar a responder à pergunta “O que as empresas criativas fazem?”. Elas foram retiradas do livro Como o cérebro cria de David Eagleman. Caso prefira, você também pode assistir à série no Netflix.

Vá além do limite da zona de conforto

Na década de 40, a Greyhound Bus Lines queria modernizar as viagens de ônibus. Nessa época, os Estados Unidos emergiam da Grande Depressão e estavam envoltos numa guerra mundial. Diante disso, os executivos conduziam seus negócios de forma conservadora.

Com o desejo de prosperidade e de olho no futuro, a empresa convidou o desenhista industrial Raymond Loewy para criar ideias inovadoras sobre como seriam os ônibus do futuro. Loewy apresentou um novo transporte coletivo: o Scenicruiser.

O veículo coletivo possuía capacidade para um grande número de passageiros, ar condicionado, banheiro e assentos de cores combinadas, possibilitando que famílias viajassem pelo país. Uma proposta audaciosa para a época. Mas Loewy estava consciente de que não seria possível fabricá-lo, pois não haviam máquinas aptas e, mesmo que houvessem, possivelmente demoraria anos para o projeto sair do papel.

A enorme distância entre os eixos do veículo fazia dele longo demais para as estradas e pontos de parada. Contudo, os executivos da Greyhound enxergaram potencial no projeto e começaram a construir protótipos logo após a Segunda Guerra Mundial, acompanhado de melhorias nas estradas por todo o território estado-unidense. Em 1954 o primeiro modelo do SceniCruiser surgiu e tornou-se o ônibus de turismo mais popular da época.

Ônibus SceniCruiser Greyhound Bus Lines

Pensando além da zona de conforto, a Greyhound preparou-se para os tempos de mudança e construiu o futuro. Na zona de conforto criamos produtos que as pessoas amam e consomem. Na zona de desconforto (ou zona de mudança) criamos produtos que as pessoas ainda não estão preparadas para entender ou aceitar. O que aprendemos com isso? Empresas criativas funcionam no limite do conforto.

Não trate a multiplicação como desperdício

Um dos primeiros modelos do Google Glass pesava quatro quilos. Durante meses a equipe por trás do projeto trabalhou para diminuir o peso e ajustar os pontos de gravidade do gadget para, por fim, chegar a um produto elegante em 2014. Mesmo depois de vários protótipos, a versão final do produto não obteve o sucesso esperado. O Google Glass era apenas um dos produtos da empresa. Assim, a Google realocou a equipe utilizando o que eles aprenderam com o projeto.

Nem todas empresas e gestores pensam ou entendem inovação como a Google. O processo criativo tem como base a geração de ideias e sim, muitas serão desperdiçadas. Vivemos no mundo em que “tempo é dinheiro”, portanto, investir horas em imaginar e criar pode ser um processo visto como perda de produtividade. Em um mercado em constante evolução, parece essencial otimizar as horas de trabalho.

Precisamos mudar a forma como enxergamos as ideias criadas e não utilizadas, o que para alguns é o fracasso. Ter ideias e descartá-las não é fracasso, mas sim faz parte do processo criativo. Uma falha ou erro significa aprendizado. Aprender leva você a uma solução. Precisamos modificar a forma como entendemos a criatividade. Não rotule suas ideias como “fracassos”, mas como “descarte de ideias”. As grandes invenções do mundo aconteceram tendo como base a diversificação.

Revitalize o local de trabalho

Em 1958, uma consultoria alemã criou o conceito de “escritório paisagem” como forma de potencializar a inovação e produtividade. Para isso, as mesas de trabalho eram distribuídas em espaço aberto, com caminhos acompanhando o fluxo de trabalho e papeis. Não haveria portas à vista, nem pessoas em escritórios pequenos. Tampouco executivos com locais privilegiados.

Hoje este conceito é amplamente utilizado por empresas ao redor do globo, incluindo Google, Facebook e Apple. Contudo, este conceito já apresenta sinais de declínio em virtude do barulho intermitente, conversas no corredor e falta de privacidade. A próxima onda de mudanças será para espaços de trabalho mais fechados e privativos. Além disso, devido a pandemia do Covid-19, as empresas investirão mais em higienização e sanitização, e na adaptação para o modelo home office.

Foto de Kaleidico no Unsplash https://unsplash.com/photos/ZRzsUkk9C8M

Como forma de potencializar a criatividade, os espaços de trabalho precisam ser revitalizados, podendo utilizar diversos métodos: troca de salas, reconfiguração dos ambientes e fazendo o mix de equipes. Mas é importante ter em mente que as formas como estimulamos a criatividade estão sempre mudando. Nada é permanente, portante um espaço de trabalho eficiente hoje pode não funcionar daqui à cinco anos. Para potencializar a inovação é preciso quebrar a rotina.

Com o aumento do home office, os gestores precisam investir em uma estrutura confortável para os profissionais trabalharem em casa, mas também pensar em estratégias de quebra de rotina para potencializar a criatividade. Como exemplo, pode ser trabalhar ao ar livre ou em um local diferente como coworking.

Em pesquisa realizada pela Cohen Brown Management Group com sua equipe, funcionários de todos os níveis relataram perder de três a cinco horas das horas de trabalho todos os dias devido a interrupções desnecessárias, indesejadas e improdutivas. Dos entrevistados, 93% disseram que são “frequentemente interrompidos” no trabalho. E desse percentual, 68% disseram que essas interrupções vieram da empresa.

Seja ágil

A Hermès, marca conhecida pela famosa bolsa Birkin, foi fundada no século XIX para produzir arreios e selas de montaria. Mais tarde, com a substituição do motor animal pelo motor mecânico, a empresa passou a produzir para a alta costura.

Jane Birkin, musa dos anos 60 e 70, sempre utilizava uma cesta de vime como bolsa. Em uma viagem de avião de Paris para Londres, sua bolsa não coube no compartimento de viagem e tudo se espalhou pelo chão. Quem ajudou Jane foi Jean-Louis Dumas, dono da Hermès. Ele ficou atento a tudo o que ela dizia e aos detalhes do que seria perfeito para uma bolsa. Em 1984 nasceu a icônica Birkin, que se tornou um dos itens mais desejados da moda.

As empresas criativas estão sempre preparadas para o pior cenário. Nenhum negócio deve se debruçar sobre um produto bem-sucedido e estabelecido no mercado: o mundo muda rápido e de maneira inesperada. Os sobreviventes são aqueles que se tornam hábeis em responderem às novas necessidades e novas oportunidades. Dessa forma, não veremos o celular definitivo, nem um programa de televisão perfeito sem atualizações, tampouco os sapatos perfeitos.

A geração de ideias precisa ter um objetivo. Thomas Edison possuía “cotas de ideias” para seus funcionários; o Google trabalha com um modelo de negócios 70/20/10 (70% dos recursos para o negócio principal, 20% para ideias emergentes e 10% ideias ousadas e inovadoras); e os funcionários do Twitter tem a Hack Week, semana que deixam seu trabalho de lado para trabalhar em algo novo.

Empresas criativas fornecem matéria-prima e ferramentas para estimular a criatividade dos seus profissionais. Na Hermès não há descarte de sobra e retalhos, pois eles são utilizados no Petit H, um laboratório de inovação para experimentos. Já foram criadas coleções inteiras a partir do Petit H, com produtos como colares, pulseiras, porta-chaves e objetos de decoração.

Na dinâmica de nosso cérebro as ideias se multiplicam e competem entre si. Algumas tornam-se conscientes, mas a maioria desaparece. Nas empresas acontece um processo semelhante onde novas ideias competem entre si por recursos. Em um mundo permeado pela imprevisibilidade e pela superação de ideias, é preciso fortalecer a diversificação e a agilidade.

E o que fazer com o processo criativo?

É essencial que gestores compreendam o processo criativo e suas implicações. Dessa forma, a empresa conseguirá instaurar uma cultura de inovação com mais eficácia e assertividade. Além disso, as empresas devem estar atentas a implementar a estratégia de multiplicar as ideias, eliminar a maioria delas e não resistir às mudanças.

Um primeiro passo para a inovação é conversar e observar.

Esteja atento!

Saia da sua zona de conforto, multiplique as opções, revitalize espaços de trabalho e seja ágil.

Um abraço e até a próxima!

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